Quero começar com um verso: “Quem é negligente na sua obra já é irmão do desperdiçador” Provérbio 18.9. Estive relutante em publicar este texto porque é muito sério e é resultado de uma experiência íntima com Deus. Mas me senti impelido a fazê-lo, pois me sinto na obrigação de compartilhar o que Deus tem me falado. Espero que este texto sirva de reflexão e mudança de pensamento para a sua vida.
Para ouvir a voz de Deus você tem que ser “cheio de Deus”.
Para ser “cheio de Deus” você precisa se esvasiar de si mesmo.
Esvasiar-se de si mesmo é um processo. Eu, sendo um cristão, chamo esse processo de santificação. O ser humano tem uma natureza egosísta, ou seja, que pensa em si mesmo em primeiro lugar. Então vamos considerar por definição “esvasiar-se de si mesmo” como sendo “fazer mais pelos outros do que por si mesmo”. Para “fazer mais pelos outros” é preciso “abrir mão” de algumas coisas que consideramos importantes para nós mesmos, que estão relacionadas com as nossas necessidades básicas. Esse processo passa por algumas fases. Depois de todas as fases poderemos achar que o processo é simples, e resumí-lo com a seguinte frase: abra mão de tudo o que você tem e você terá muito mais do que você precisa e muito mais do que você gostaria de ter.
A primeira fase talvez seja a mais difícil, porque ela é como o abrir dos olhos para um cego¹. Vamos chamá-la de “abrir mão da natureza carnal”. Para abrir mão da nossa natureza carnal precisaremos abrir mão do que eu considero nossa primeira ou principal necessidade básica²: as necessidades fisiológicas. Ou seja: comer e beber. É o primeiro passo para nos esvasiarmos de nós mesmos. Jesus jejuou no início do seu ministério durante quarenta dias e quarenta noites (Cf. Mateus 4.2), ou seja, não comeu durante quarenta dias e quarenta noites initerruptos. Elias, profeta de Deus, caminhou durante 40 dias e 40 noites com a força de apenas uma alimentação (Cf. I Reis 19.8). Ao abrir mão do alimento diário naturalmente nós enfraquecemos nosso corpo, mas ao mesmo tempo fortalecemos nosso espírito que estará mais perto de Deus. Ao jejuar estaremos deixando de fazer algo que queremos. Deixando de fazer nossa própria vontade estamos dando o primeiro passo em direção a “fazer mais pelos outros”. Passaremos a reconhecer e valorizar mais o alimento. Reconheceremos a sua importância no dia a dia. E compreenderemos melhor as pessoas que não possuem o alimento. É preciso ter muito domínio próprio para jejuar. Não pode ser algo forçado, tem que ser por vontade própria. Porém o jejum apenas não é o suficiente, é necessária oração constante. A oração fortalecerá seu corpo e sua alma, e abrirá seus olhos, seus ouvidos, suas narinas, sua pele, seu coração, desta forma você estará sensível a Deus. Depois de concluir o jejum com oração você perceberá que o que você come é mais do que o necessário para sobreviver. Se algumas pessoas excepcionais como Jesus e Elias (com o auxílio da força de Deus) conseguiram sobreviver 40 dias com uma única refeição. Uma pessoa normal é capaz de sobreviver pelo menos um dia com uma refeição apenas. Desta forma você perceberá que três ou quatro refeições por dia algumas vezes serão mais do que o necessário para você. E o próximo passo depois de perceber isso é compartilhar o alimento com pessoas que tem menos de uma refeição por dia. E você passará a pensar: menos pra mim e mais para os outros.
Depois de “abrir mão da natureza carnal” o segundo passo, eu acredito, é “compartilhar” (o verbo “to share” em inglês) que é também dividir. Ele está relacionado com outras necessidades básicas que são a vestimenta e a moradia. Compartilhar suas roupas com outras pessoas que não possuem é outra forma de buscar “ser cheio de Deus”, ser menos egoísta. Não me refiro a dar roupas velhas para os pobres, me refiro dar roupas iguais às suas para pessoas que não tem como se vestir decentemente. Mesmo que não seja recompensador, ao dar você está dizendo: menos pra mim e mais para os outros.
Compartilhar as vestimentas pode ser mais fácil do que abrir mão da alimentação. Isso porque geralmente temos mais de uma vestimenta. Porém compartilhar a moradia pode parecer bem complicado para algumas pessoas. Mas a Bíblia³ fala que alguns, sem saber, hospedaram anjos (Cf. Hebreus 13.1-2). Isso quer dizer que a hospitalidade é o mesmo que ter Deus, literalmente morando na sua casa.
Um outro passo em direção a “ser cheio de Deus” e “fazer mais pelos outros” é sobre a necessidade de saúde. Jó foi um homem provado em diversas áreas de sua vida e uma das mais difíceis foi a saúde. Jó perdeu a saúde e continuou fiel a Deus (Cf. Jó 2.7-10). Isso também é abrir mão da natureza carnal. O corpo físico é menos importante do que o corpo espiritual. Porque Deus é espírito. E uma frase importante para quem quer ser cheio de Deus é: você tem que se espiritualizar. Espiritualizar-se quer dizer buscar viver as coisas espirituais com intensidade. Então o corpo estará em segundo lugar sempre. Você tem que “fazer mais pelos outros” em relação à saúde também. Cuidar de doentes, conversar com eles, orar com eles e por eles. Cabe aqui a famosa frase: “se alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram”. Isso tudo é preciso pra você que quer ser cheio de Deus. Jesus também atuou nessa área, e em nenhuma parte da Bíblia fala que Jesus adoeceu ou um de seus discípulos.
Outra necessidade do ser humano é a de locomoção. Isto é também um direito assegurado por lei. Então abrir mão desse direito é também uma forma de esvasiar-se. É como dizer: isto é importante para mim, porém não quero fazer mais a minha própria vontade. Quando você abre mão da sua própria vontade você dá espaço para Deus agir na sua vida. Você poderá então a fazer aquilo que Deus quer. E o Seu Espírito falará a você onde ir e o que fazer. Desta forma visitar e evangelizar os presos pode ser um chamado de Deus para a sua vida. Se compadecer daqueles que foram privados do direito de ir e vir. Se você fizer isso você estará pregando, sem palavras, que a graça de Deus é maior que a justiça dos homens. A graça de Deus sobrepuja a justiça humana. Deus quer salvar aqueles que a humanidade já condenou. O cálculo que Jesus ensinou de contar 70 x 7 é para ser aplicado também aos criminosos. Alguns vão arrepender-se como o ladrão crucificado ao lado de Jesus, outros vão zombar. Não se deve esperar nenhuma recompensa terrena. Deus porém quer salvar a todos quantos quiserem ser salvos, ou seja, Ele quer salvar a todos quantos puder. O livro “A Cabana” é um best-seller escrito por William P. Young baseado em uma história real que fala, em resumo, sobre o perdão. Não é fácil perdoar, porém, muito mais difícil é condenar. Se queremos ser cheios de Deus não devemos julgar, devemos levar a graça e o amor àqueles que parecem ser um caso perdido. Porque para Deus não existe caso perdido. Não existe coisa impossível (Cf. Lucas 1.37).
Tudo que escrevi aqui é o que pensei e ouvi de Deus (porque acredito que Deus falou e fala comigo e com todos) em resposta à pergunta: Como ouvir à voz de Deus? Depois de muitos questionamentos sobre minha vida, sobre meu modo de ser, pedi a Deus que me respondesse. E achando que ele não me ouvia comecei me a perguntar: Por que Deus não fala comigo? Como faço para ouvir claramente a Sua voz? Depois de pensar um pouco sobre a resposta Deus começou a falar comigo em frases que tenho certeza que não eram meus pensamentos. Essas frases estão destacadas das demais em amarelo. Tudo isso também veio em resposta à pergunta: O que eu preciso abrir mão para que Deus cumpra sua vontade na minha vida? É difícil escrever um texto desse, porque eu mesmo sinto que ainda falta muito para que eu mesmo possa ser assim, e sinceramente gostaria de fazer todas estas coisas, e faço, porém pouco, gostaria de fazer mais. Mas me sinto obrigado a escrever e publicar este texto porque é resposta de Deus pra minha vida e pra vida de outras pessoas. Quem não compreende o que eu quis dizer neste texto pode questionar: Por que eu devo querer ser cheio de Deus? Por isso vou escrever um artigo com este tema. Mas já respondo: você só tem a ganhar e nada a perder. Que Deus abençoe você!
Notas:
¹Certa vez assisti um filme que contava a história de um cego de nascença que veio a enxergar depois de muitas tentativas com equipamentos eletrônicos, e no final ele se submetia a uma cirurgia para vir a enxergar e até passou um tempo vendo, porém ele não compreendia o que via, era como uma criança que vê a sombra, vê uma imagem numa revista ou na TV e não compreende. Depois ele voltou a ser cego novamente e escreveu um livro sobre sua experiência de enxergar. Na Bíblia também fala de um cego de nascença que fora curado por Jesus (Cf. João 9.1-12) que voltou a ver e compreendia o que via. Eu considero este um milagre duplo.
²considero as necessidades básicas sendo 5: alimentação, vestimenta, moradia, saúde e locomoção.
³Hebreus 13.1-2. “Seja constante o amor fraternal. Não negligencieis a hospitalidade, pois alguns, praticando-a, sem o saber acolheram anjos.”
Escrito por Valencio Neto em 22/10/11